“Terricídio” – Resenha de Okara Yby

“‘Você quer saber quem sou? Pergunte à montanha quem sou, pergunte ao rio, ao vento, e se essas pessoas souberem escutar, vão saber te reconhecer’. O território nos constitui, a Terra determina quem somos. Nem os Estados invasores, nem a arrogância cientificista e
negadora podem nos tirar o DNA da Terra. Somos a Terra e ela nos habita” – Moira Millán

Recentemente a obra da indígena mapuche Moira Millán chegou ao Brasil, nos trazendo incríveis reflexões com base em sua trajetória. A autora nos apresenta o conceito de terricídio: dentro da percepção ancestral de Moira, todos os seres se entrelaçam, construindo essa ordem — quando a diversidade da vida é desrespeitada por meio da invasão, exploração e tentativas de extermínio, uma agressão está sendo feito contra a ordem cósmica e estamos diante do terricídio. Da violência contra a terra e seus elementos e espécies, até a violência contra povos indígenas, mulheres, LGBTI+, ambientalistas, tudo compõe a violência contra o entrelace dos seres vivos.

Ao falar em diversidade, Moira escreve o capítulo sobre “Relmü” (arco-íris), sobre os espíritos diversos. Os mapuche, como muitos outros povos indígenas, reconhecem pessoas que não se adequam ao binário de gênero, chamadas de “weye”. A autora afirma que a terra se comunica através desses corpos habitados por espíritos diversos. “Portadores de um frágil e maravilhoso ecossistema espiritual, essas pessoas vieram cumprir um propósito transcendental e que não podemos explicar”. O desrespeito e tentativas de aniquilamento dessas vidas faz parte do terricídio. Moira defende a importância dos povos indígenas se livrarem dos valores coloniais e cristãos impostos aos povos indígenas, para que a vida diversa possa ser recuperada: cada cor do arco-íris representa uma força vital.

Assim, Moira Millán nos ensina sobre a necessidade de uma Revolução Telúrica, para o desenvolvimento de sociedades vinculadas à Mapu (Terra), que saibam conviver com a diversidade e com os mundos sensíveis, restaurando a ordem cósmica. A autora se coloca de forma muito crítica aos Estados-Nação, defendendo que estão obsoletos, não representam o povo e não são guardiões da vida. “Mais do que um fuzil, hoje em dia devemos tomar as palavras de forma clara e contundente: sair às ruas com nosso canto, com nossa espiritualidade. Sair com protestos, com recuperações de terra, com cerimônias na margem dos rios, com construções naturais autônomas, com sistemas de troca, com ações diretas que defendem a Terra e a vida. Dizem que ‘um mundo novo e melhor é possível’. Nós, povos indígenas, sabemos que um mundo milenar melhor foi possível e podemos recuperá-lo”.

Moira Millán também faz uma crítica à vida nas cidades, território onde tantos chegam após a desapropriação de terras. A realidade da maioria dos indígenas no espaço urbano é a marginalização, o empobrecimento e o adoecimento físico e espiritual. Ela diz que sem o território, nos sentimentos perdidos e sozinhos, kuñefal, a orfandade, que nos impede de experimentar a conexão com a Natureza e o diálogo com os espíritos. Por isso, a luta indígena pelo território, esse local onde outra relação com a terra é possível, é fundamental. Apesar dessa ser uma questão central para indígenas, Moira acredita que toda a humanidade está sujeita a essa desconexão ao viver as vidas altamente urbanizadas, que comem o mundo.

Para tantos que após séculos de colonização e etnocídio perderam o contato com seus povos de origem ou a experiência comunitária, Moira deixa as seguintes palavras de acalento: “ ‘Você quer saber quem sou? Pergunte à montanha quem sou, pergunte ao rio, ao vento, e se essas pessoas souberem escutar, vão saber te reconhecer’. O território nos constitui, a Terra determina quem somos. Nem os Estados invasores, nem a arrogância cientificista e negadora podem nos tirar o DNA da Terra. Somos a Terra e ela nos habita”.

Okara Yby

Artigos relacionados

Acompanhe nossa newsletter

Inscreva-se na nossa newsletter e fique por dentro de lançamentos, eventos e muito mais!